"Tenho andado a pensar numa história que li há uns tempos, um conto, não me lembro de quem... Era de uma mulher qualquer. Uma escritora não sei de onde.
Um homem decide deixar a mulher que ama. Quando ela lhe pergunta porquê, ele responde "Porque nunca soltas o cabelo." O homem tinha passado um ano inteiro a pedir à mulher para soltar o cabelo, quando saíam, quando iam a festas, quando iam visitar a família dele. A mulher nunca soltou. Porque o cabelo ainda estava molhado do banho. Porque não dava jeito durante a viagem, ou porque não tinha um espelho ali à mão e ficava sempre para quando chegassem aos sítios; quando chegava esquecia-se sempre. O homem andou assim um ano inteiro. A única altura em que via a mulher com o cabelo solto era quando se deitavam. Logo depois, apagava a luz... e o homem dormia abraçado à mulher com os cabelos dela a fazerem-lhe cócegas no rosto e a entrarem-lhe pelo nariz, pela boca... pelos olhos adentro. A mulher ficou surpreendida com o motivo pelo qual o homem se ia embora. Disse que não percebia, que ninguém deixava ninguém só porque não soltava o cabelo. No meio de tantas coisas importantes o que é que interessava soltar o cabelo. Que percebia quando as pessoas se separavam quando já não havia amor, ou quando não havia sexo, ou era horrível. Quando discutiam muito, quando havia um amante, ou quando tinham gostos muito diferentes... Mas que não percebia de todo, de forma alguma, como era possível deixar alguém apenas porque o outro não soltava o cabelo. O homem começou a pensar como havia de explicar à mulher o porquê da coisa, começou a sentir que não era capaz. Disse-lhe que era importante para ele, sentir que ela estava com ele quando iam àqueles sítios. E o que o cabelo podia ser um sinal. E que queria sentir orgulho nela quando estava ao pé dos outros. Que ela ficava de facto muito mais bonita quando soltava o cabelo e era uma coisa tão simples de fazer. A mulher continuou a dizer que não percebia. O homem calou-se. "Se ela não foi capaz de soltar o cabelo uma única vez durante um ano inteiro, não vai ser capaz de perceber porque o devia ter feito", pensou. Naquela noite voltou a adormecer no meio dos cabelos da mulher. Espalhavam-se pela cara dele e um bocado pelo corpo. No escuro. Com os olhos fechados. De manhã, antes de saírem para o trabalho, quando ela se estava a vestir ele pediu-lhe novamente para soltar o cabelo. Ela disse que sim. Preparou o pequeno almoço. Comeram. Arrumou a cozinha. Fez a cama. Tocou o telefone. Começaram a ficar atrasados. Depois a mulher não encontrava o gancho para o cabelo. Começou a ficar aflita. O homem encontrou-o no sofá da sala. Deu-lho. Saíram a correr, com a mulher a tentar prender o cabelo. À noite, o homem foi comprar cigarros. Foi-se embora. Acho que nem sequer fumava. É uma história engraçada, muito "lindinha" não é? Mas tem o seu quê de verdade. Não sei. O que une as pessoas não são as coisas grandes, o que faz querermos ficar com os outros são as coisas muito pequenas que quase não se vêem, que só se sentem, que não se explicam..."